domingo, 6 de maio de 2012

CONCURSO SOLETRANDO


REGRAS BÁSICA DE ORTOGRAFIA
ACENTUAÇÃO
1 -  OXÍTONAS:
São acentuadas as palavras terminadas em:
·         a (s) - sofá, atrás;
·         e (s) - café, vocês;
·         o (s) - avó, repôs;
·         em (ns), desde que tenham mais de uma sílaba – vintém, parabéns.

OS MONOSSILABOS TONICOS SEGUEM ESTA MESMA REGRA.
·         lá, dá (verbo) dê (verbo), pás;
·         pé, vês;
·         nó, pôs.

2 – PAROXÍTONAS :
São acentuadas as terminadas em:
·         ã (s) – órfã, órfãs;
·         ão (s) – órgãos, bênçãos;
·         i (s) – táxi, lápis;
·         us – Vênus, vírus;
·         um, uns – ábum, médiuns;
·         os – bíceps;
·         l – dócil, sofrível;
·         n – hífen;
·         mártir, repórter;
·         x – tórax;
·         ditongos – séria, fáceis;
·         on (s) – íon, nêutrons.

3. PROPARAXÍTONAS:
Todas são acentuadas, sem exceção.
·         Lâmpada, médico, protótipo.

4. HIATO:
Acentua-se o i ou u:
- sozinho na silaba ou seguidas de S:
* saí, baú, caíste;
- não seguidas de NH:
* rainha, raiz, sair, ainda.

5. MONOSSÍLABOS VERBAIS:
- terceira pessoa do plural dos verbos TER e VIR:
* tem (singular) / têm (plural)
* vem (singular) / vêm (plural)

6. ACENTOS DIFERENCIAIS:
* pára (do verbo para) / para (preposição)
* pêra (substantivo) / pera (preposição)
* péla (verbo pelar) / pela (junção de preposição e artigo)
* pelo (substantivo) / pelo (do pelar)
* pólo (substantivo) polo (junção de por e lo)

Duas palavras fogem à nova regra:
·         pôr (verbo) e pôde (o verbo conjugado no passado) continuam com o acento diferencial.
No caso do pôr é para evitar a confusão com a preposição por. Já o pôde continua com acentuação para não se confundido com pode (o mesmo verbo conjugado no presente).
Nas palavras fôrma / forma o uso do acento é facultativo.

ORTOGRAFIA: USO DE LETRAS
1.       A LETRA “x”:
1.1   – após ditongo: peixe, deixa, faixa, caixa.
1.2   – após a silaba inicial “ME”: mexer, mexerica, mexa.
1.3   – após a sílaba “EN”:
Obs: encher, enchente, etc / são exceções porque derivam da palavra cheio.
1.4   – em aportuguesamento de palavras de origem inglesa:  xampu, xerife.
1.5   – em palavras de origem tupi, africana ou exótica: xaxim, xingar, xucro.

2 – a letra “S” com som de Z:
2.1 – em sufixos, quando o radical é substantivo: maresia, poetisa, burguesia.
2.2 – em títulos de nobreza: marquesa, duquesa, baronesa.
2.3 – correlação D – S: aludir / alusão, defender / defesa.
2.4 – nos adjetivos pátrios: português, inglesa, francesa.
2.5 – nas formas dos verbos PÔR e QUERER: pusesse, quisesse, quis, pôs.
2.6 – após ditongo: coisa, maisena, Neusa, Cleusa, Sousa.
2.7 – em diminutivos cujos radicais terminam em S: Luisinho, lapisinho, Rosinha.
2.8 – em diminutivos de radicais que não têm “Z”: Luisinho, Rosinha, Teresinha.

3 – A LETRA “Z”:
3.1 – nos sufixos, quando o radical é adjetivo : riqueza, limpeza, surdez, maciez.
3.2 – correlação C – Z: ácido / azado, décimo / dezena.
3.3 – consoante de ligação (quando não há S ou Z no radical): cafezal, pezinho.

4. A LETRA “C” (Ç)”:
4.1 – correlação T – C: ato / ação, infrator / infração.
4.2 – palavras de origem tupi, africana ou exótica: muçum, Juçara, araçá, miçanga, Iguaçu.
4.3 – após ditongo: feição, foice.

5 – A LETRA “S”:
5.1 – correlação ND – ND: pretender / pretencioso / pretensão, tender / tensão, suspender /  suspensão, compreender / compreensão.
5.2 – correlações RG – RS / RT – RS: aspergir / aspersão , inverter / inversão.



6 – A LETRA “J”
6.1 – palavras de origem latina:
> jeito, majestade, cerejeira, hoje.
6.2- palavras de origem árabe, tupi ou africana:
> alforje, jibóia, pajé, manjericão, berinjela, Moji, Bajé, Jeni, jinjibirra, Lajes, pajem, ojeriza.
6.3 – palavras derivadas de outras grafadas com J:
> sarja>sarjeta; encorajar>encorajem.
6.4 – substantivos de verbos terminados em JAR:
> despeje, arranje, esbanje, viaje, viajem ( verbo na 3ª pessoa do plural nos modos subjuntivo ou imperativo, exemplo: É necessário que eles viajem ainda hoje.*.
6.5 – terminação AJE:
> laje, traje, ultraje.

7 – A LETRA “G”:
            7.1 – procedência árabe:
            > álgebra, ginete, giz.
            7.2 – procedência latina ou grega:
>falange, agir, tigela, gesto.
7.3 – estrangeirismos:
> agiota, geléia, herege, sargento, gim.
7.4 – em geral, após R (há exceções):
> aspergir, divergir, submergir
7.5 – após o “A” inicial:
> agir, agitar.



PALAVRAS HOMÔNIMAS E PARÔNIMAS

1 - HOMÔNIMAS:
A) homófonas = escrita e pronúncia iguais.
                                   > cedo (advérbio) / cedo (verbo)
B) heterófonas = escrita igual e som diferente.
                                   > colher (substantivo) / colher (verbo)
C) heterógrafas = som igual e escrita diferente.
                                   > serrar (cortar) / cerrar (fechar)
2 - PARÔNIMAS:
grafia e pronúncia parecidas, semelhantes.
                                   > emigrar (sair) / imigrar (chegar)
                                   > espiar (sondar) / expiar (pagar)
                                   > tráfego (movimento) / tráfico(comércio)

2.1 - P O R Q U Ê S

POR QUE:
a) em perguntas diretas ou indiretas.
            > Por que não veio ontem?
            > Quero saber por que não veio ontem.

b) quando corresponder a “PELO QUAL” e variações.
            ex: Esta é a porta por que passamos.

POR QUÊ:
            Em final de frase ou isolado.
> Você não veio por quê?
            >  Você não veio. Por quê?

PORQUE:
Introduz explicação, resposta.
            > Não estuda porque não quer.

PORQUÊ:
            é substantivo, sempre precedido de artigo ou numeral.
            > Eis o porquê de estudarmos.
            > Dê-me um porquê da briga.

2.2 - MAL / MAU
            a) MAL: antônimo de BEM.
                        >Foram mal no teste.
            b) MAU: antônimo de BOM.
                        > O teste foi mau.

2.3 - ONDE:
a) onde = em que lugar / no lugar em que
            > Onde está a caneta?
b) aonde = indica direção, destino (a/ para + onde).
            > aonde iremos?
c) donde = indica origem (de + onde).
            > Donde vens?

2.4 - HÁ / A
a) = tempo passado.
                        > Há tempos não nos vemos.
b) A = tempo futuro.
                        > Daqui a dez minutos poderemos sair.

05 - SEÇÃO, SESSÃO, SECÇÃO. CESSÃO.
a) SEÇÃO = divisão, departamento.
                                   > Seção de Contabilidade.
b) SESSÃO = reunião.
                                   > sessão das dez.
c) SECÇÃO = corte.
                                   > secção dos troncos.
d) CESSÃO = flexão do verbo ceder.
                                   > Faremos a cessão do terreno.


PROSÓDIA > Trata da acentuação vocálica correta das palavras.

1 - São PROPAROXÍTONAS as seguintes palavras:
álibi, aríete, bávaro, bímano, bólido, brâmane, cômputo (s), édito, égide, elétrodo, ínterim.

2 - São PAROXÍTONAS as seguintes palavras:
avaro, austero, barbárie, boêmia, caracteres, ciclope, cível, circuito, dúplex, edito, fluido, fortuito, gratuito, ibero, látex, necropsia, Normandia, policromo, pudico, recorde, rubrica, sinonímia, tríplex.

3 - São OXÍTONAS as seguintes palavras.
Cateter, condor, mister, Nobel, hangar, ruim, sutil, ureter.

4 - PALAVRAS QUE ADMITEM DUPLA PRONÚNCIA:
acróbata / acrobata                              ambrósia / ambrosia
anídrido / anidrido                                crisântemo / crisantemo
geodésia / geodesia                            Oceânia / Oceania
projétil / projetil                                    réptil / reptil
sóror / soror                                        xérox / xerox
catorze/quator


Regra Geral do uso do hífen
A letra “H” é uma letra sem personalidade, sem som. Em “Helena”, não tem som; em “Hollywood”, tem som de “R”. Portanto, não misture um prefixo com “essa gente”.
  • pré-história
  • anti-higiênico
  • sub-hepático
  • super-homem
Então, letras IGUAIS, SEPARA. Letras DIFERENTES, JUNTA.
Anti-inflamatório                             neoliberalismo
Supra-auricular                                extraoficial
Arqui-inimigo                                  semicírculo
sub-bibliotecário superintendente
O “R” e o “S” são letras pra lá de valentes, feito Rambo e Super-homem. Por isso, se a juntarmos com uma vogal (“uma moça”), eles ficam “tão machos” que se dobram:
suprarrenal                                      ultrassonografia
minissaia                                          antisséptico
contrarregra                                     megassaia
Entretanto, se o prefixo terminar em consoante (macho igual a eles), não se unem de jeito nenhum.
Sub-reino                    ab-rogar               sob-roda
ATENÇÃO!
Quando dois “R” ou “S” se encontrarem, permanece a regra geral: letras iguais, SEPARA.
super-requintado                             super-realista
inter-resistente
CONTINUAMOS A USAR O HÍFEN
Diante dos prefixos “ex-, sota-, soto-, vice- e vizo-“:
Ex-diretor, Ex-hospedeira, Sota-piloto, Soto-mestre, Vice-presidente , Vizo-rei
Diante de “pós-, pré- e pró-“, quando TEM SOM FORTE E ACENTO.
pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-labore
pró-africano, pró-europeu, pós-graduação
Diante de “pan-, circum-, quando juntos de vogais.
Pan-americano, circum-escola
OBS. “Circunferência” – é junto, pois está diante da consoante “F”.
NOTA: Veja como fica estranha a pronúncia se não usarmos o hífen:
Exesposa, sotapiloto, panamericano, vicesuplente, circumescola.
ATENÇÃO!
Não se usa o hífen diante de “CO-, RE-, PRE” (SEM ACENTO)
Coordenar                               reedição                        preestabelecer
Coordenação                           refazer                           preexistir
Coordenador                           reescrever                     prever
Coobrigar                               relembrar
Cooperação                             reutilização
Cooperativa                                      reelaborar
O ideal para memorizar essas regras, lembre-se, é conhecer e usar pelo menos uma palavra de cada prefixo. Quando bater a dúvida numa palavra, compare-a à palavra que você já sabe e escreva-a duas vezes: numa você usa o hífen, na outra não. Qual a certa? Confie na sua memória! Uma delas vai te parecer mais familiar.
REGRA GERAL (Resumindo)
Letras iguais, separa com hífen(-).
Letras diferentes, junta.
O “H” não tem personalidade, vai na “onda” dos outros. Separa (-).
O “R” e o “S” são valentes. Se estão perto das vogais (mulherada) fica tão macho que viram DOIS. Mas não se juntam com consoantes (Cabra macho).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vida e obra de Machado de Assis

Quem quiser ler todos os contos e obras de Machado de Assis, basta clicar no link abaixo. A leitura é capaz de fazer maravilhas em mentes que estão dispostas a evoluir.



http://machado.mec.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=174&Itemid=

Almas Agradecidas (Machado de Assis)

        Este conto de Machado de Assis é simplesmente intrigante e maravilhoso. Ficou curioso? Clique então no link abaixo e entre no mundo da leitura.

http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn034.pdf


Interpretação e comentário sobre o conto "Almas Agradecidas".
http://machadodeassis.net/download/numero08/num08artigo09.pdf

O relógio de ouro (Machado de Assis)

Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro, inteiramente novo,
preso a uma elegante cadeia. Luís Negreiros tinha muita razão em ficar boquiaberto quando viu o

relógio em casa, um relógio que não era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria ilusão dos seus

olhos? Não era; o relógio ali estava sobre uma mesa da alcova, a olhar para ele, talvez tão espantado

como ele, do lugar e da situação.

Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se ficar na sala, a

folhear um romance, sem compreender muito nem pouco aos ósculo com que o marido a

cumprimentou logo à entrada. Era uma bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou

por isso mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto, quem lhe

examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no sofá,

com o livro aberto e, os olhos no livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se

estava no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao relógio.

Luís Negreiros lançou mão do relógio com uma expressão que eu não me atrevo a descrever.

Nem o relógio, nem a corrente eram dele; também não eram das pessoas suas conhecidas. Tratavase

de uma charada. Luís Negreiros gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrépido; mas

gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpáveis e sobretudo sem conceito, não

as apreciava Luís Negreiros.

Por este motivo, e outros que são óbvios, compreenderá o leitor que o esposo de Clarinha se

atirasse sobre uma cadeira, puxasse raivosamente os cabelos, batesse com o pé no chão, e lançasse o

relógio e a corrente para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestação de furor, Luís

negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou na mesma. Cruzou os

braços durante algum tempo e refletiu sobre o caso, interrogou todas as suas recordações, e concluiu

no fim de tudo que, sem uma explicação de Clarinha qualquer procedimento fora baldado ou

precipitado.

Foi ter com ela.

Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com ar indiferente e

tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de cronômetro. Luís negreiros encarou-a; seus

olhos pareciam dois reluzentes punhais.

– Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente concordava em

lhe achar.

Luís negreiros não respondeu a interrogação da mulher; olhou algum tempo para ela; depois

deu duas voltas na sala, passando a mão pelos cabelos, por modo que a moça de novo lhe

perguntou:

– Que tens?

Luís negreiros parou defronte dela.

– Que é isto? disse ele, tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho diante dos

olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão.

Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís negreiros esteve algum tempo com o relógio

na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís

Negreiros foi o primeiro que o rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em

seguida à esposa:

– Vamos, de quem é aquele relógio?

Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e murmurou:

– Não sei.

Luís negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se. A mulher levantouse,

apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa pequena. Não se pode sofrear Luís negreiros.

Caminhou para ela, e segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse:

– Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma?

Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou os pulsos que

estavam arrochados. Noutras circunstâncias é provável que Luís negreiros lhe caísse aos pés e

pedisse perdão de a haver machucado. Naquele momento, nem se lembrou disso; deixou-a no meio

da sala e entrou a passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando, como se

meditasse algum desfecho trágico.

Clarinha saiu da sala.

Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na mesa.

– Onde está a senhora?

– Não sei, não senhor.

Luís negreiros foi procurar a mulher; achou-a numa saleta de costura, sentada numa cadeira

baixa, com a cabeça nas mãos a soluçar. Ao ruído que ele fez na ocasião defechar a porta atrás de si,

Clarinha levantou a cabeça, e Luís Negreiros pode ver-lhe as faces úmidas de lágrimas. Esta

situação foi ainda pior para ele que a da sala. Luís negreiros não podia ver chorar uma mulher,

sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lágrimas com um beijo, mas reprimiu o gesto, e caminhou frio

para ela; puxou uma cadeira e sentou-se em frente a Clarinha.

– Estou tranqüilo, como vês, disse ele, responde-me ao que te perguntei com a franqueza

que sempre usaste comigo. Eu não te acuso nem suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber

como foi parar ali aquele relógio. Foi teu pai que o esqueceu cá?

– Mas então?

– Oh! não me perguntes nada! exclamou Clarinha. Ignoro como esse relógio se acha ali...

Não sei de quem é... deixa-me.

– É demais! urrou Luís negreiros, levantando-se e atirando a cadeira ao chão.

Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situação tornava-se cada vez mais

grave; Luís negreiros passeava cada vez mais agitado, revolvendo os olhos nas órbitas, e, parecendo

prestes a atirar-se sobre a infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regaço e a cabeça nas mãos,

tinha os olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de hora. Luís negreiros ia de

novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz do sogro, que subia as escadas gritando:

– Ó “seu” Luís! ó “seu” malandrim!

– Ai vem teu pai! disse Luís Negreiros; logo me pagarás.

Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que já estava no meio da sala, fazendo viravoltas

com o chapéu-de-sol, com grande riscos das jarras e do candelabro.

– Vocês estavam dormindo? perguntou o Sr. Meireles tirando o chapéu e limpando a

testa com um grande lenço encarnado.

– Não, senhor, estávamos conversando...

– Conversando?... repetiu Meireles.

E acrescentou consigo:

– Estavam de arrufos... é o que há de ser.

– Não vim cá para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje e amanhã também. Não me

convidaste, mas é o mesmo.

– Não o convidei?...

– Sim, não fazes anos amanhã?

– Ah! é verdade...

Não havia razão aparente para que, depois destas palavras ditas com um tom lúgubre, Luís

negreiros repetisse, mas desta vez com um tom descomunalmente alegre:

– Ah! é verdade!...

Meireles, que já por o chapéu num cabide do corredor, voltou-se para o genro, em cujo rosto

leu a mais franca, súbita e inexplicável alegria.

– Está maluco! Disse baixinho Meireles.

– Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro, enquanto Meireles, seguindo pelo

corredor, ia ter à sala de jantar.

Luís Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a de pé, compondo os cabelos

diante de um espelho:

– Obrigado, disse.

A moça olhou para ele admirada.

– Obrigado, repetiu Luís negreiros, obrigado e perdoa-me.

Dizendo isto, procurou Luís Negreiros abracá-la; mas a moça, com um gesto nobre, repeliu o

afago e foi para a sala de jantar.

– Tem razão! murmurou Luís negreiros.

Daí a pouco achavam-se todos três à mesa do jantar, e foi servida a sopa, que Meireles achou,

como era natural, de gelo. Ia já fazer um discurso a respeito da incúria dos criados, quando Luís

Negreiros confessou que toda a culpa era dele, porque o jantar estava há muito na mesa. A

declaração apenas mudou o assunto do discurso, que versou então sobre a terrível coisa que era um

jantar requentado, -
qui ne valut jamais rien.

Meireles era um homem alegre, pilhérico, talvez frívolo demais para a idade, mas em todo o

caso interessante pessoa. Luís Negreiros gostava muito dele, e via correspondida essa afeição de

parente e amigo, tanto mais sincera quanto que Meireles só tarde e de má vontade lhe dera a filha.

Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha, mais de dois em meditar e

resolver o assunto do casamento. Afinal deu a sua decisão, levado antes das lágrimas da filha que

dos predicados do genro, dizia ele.

A causa da longa hesitação eram os costumes poucos austeros de Luís Negreiros, não os que

ele tinha durante o namoro, mas os que tivera antes e os que poderia vir a ter depois. Meireles

confessava ingenuamente que fora marido pouco exemplar, e achava que por isso, mesmo devia dar

à filha melhor esposo do que ele. Luís Negreiros desmentiu as apreensões do sogro; o leão

impetuoso dos outros dias, tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu franca entre o sogro e o

genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas moças da cidade.

E era tanto maior o mérito de Luís Negreiros quanto que não lhe faltavam tentações. O diabo

metia-se às vezes na pele de um amigo e ia convidá-lo a uma recordação dos antigos tempos. Mas

Luís Negreiros dizia que se recolhera a bom porto e não queria arriscar-se outra vez às tormentas do

alto mar.

Clarinha amava ternamente o marido e era a mais dócil e afável criatura que por aqueles

tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do céu

conjugal era sempre a mesma e parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a

primeira nuvem?

Durante o jantar Clarinha não disse palavra, - ou poucas dissera, ainda assim as mais breves e

em tom seco.

– Estão de arrufo, não há dúvida, pensou Meireles ao ver a pertinaz mudez da filha. Ou a

arrufada é só ela, porque ele pareceu-me lépido.

Luís Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados, mimos e cortesias com a mulher,

que nem sequer olhava em cheio para ele. O marido já dava o sogro a todos os diabos, desejoso de

ficar a sós com a esposa, para a explicação que reconciliaria os ânimos. Clarinha parecia não desejálo;

comeu pouco e duas ou três vezes soltou-se-lhe do peito um suspiro.

Já se vê que o jantar, por maiores que fossem os esforços, não podia ser como nos outros dias.

Meireles sobretudo achava-se acanhado. Não era que receasse algum grande acontecimento em

casa; sua idéia é que sem arrufos não se aprecia a felicidade, como sem tempestade não se aprecia o

bom tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na fervura.

Quando veio o café, Meireles propôs que fossem todos três ao teatro; Luís Negreiros aceitou a

idéia com entusiasmo. Clarinha recusou secamente.

– Não te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo impaciente. Teu marido está

alegre e tu pareces-me abatida e preocupada. Que tens?

Clarinha não respondeu; Luís Negreiros, sem saber o que havia de dizer, tomou a resolução de

fazer bolinhas de miolo de pão. Meireles levantou os ombros.

– Vocês lá se entendem, disse ele. Se amanhã, apesar de ser o dia que é, vocês tiverem do

mesmo modo, prometo-lhe que nem a sombra me verão.

– Oh! há de vir, ia dizendo Luís Negreiros, mas foi interrompido pela mulher que desatou

a chorar.

O jantar acabou assim triste e aborrecido, Meireles pediu ao genro que lhe explicasse o que

aquilo era, e este prometeu que lhe diria tudo na ocasião oportuna.

Pouco depois saía o pai de Clarinha protestando de novo que, se no dia seguinte os achasse do

mesmo modo, nunca mais voltaria a casa deles, e que se havia coisa pior que um jantar frio ou

requentado, era um jantar mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ninguém lhe prestou

atenção.

Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu do sogro, foi ter com ela. Achou-a

sentada na cama, com a cabeça sobre uma almofada, e soluçando. Luís Negreiros ajoelhou-se diante

dela e pegou-lhe numa das mãos.

– Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. Já tenho a explicação do relógio; se teu pai não me

fala em vir jantar amanhã, eu não era capaz de adivinhar que o relógio era um presente de anos que

tu me fazias.

Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que a moça se pôs de pé

quando ouviu estas palavras do marido. Luís Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A

moça não disse uma nem duas; saiu do quarto e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca.

– Mas que enigma é este? perguntava a si mesmo Luís Negreiros. Se não era um mimo

de anos, que explicação pode ter o tal relógio?

A situação era a mesma que antes do jantar. Luís Negreiros assentou de descobrir tudo

naquela noite. Achou, entretanto, que era conveniente refletir maduramente no caso e assentar numa

resolução que fosse decisiva. Com este propósito recolheu-se ao seu gabinete, e ali recordou tudo o

que se havia passado desde que chegara a casa. Pesou friamente todas as razões, todos os

incidentes, e buscou reproduzir na memória a expressão do rosto da moça, em toda aquela tarde. O

gesto de indignação e a repulsa quando ela a foi abraçar na sala de costura, eram a favor dela; mas o

movimento com que mordera os lábios no momento em que ele lhe apresentou o relógio, as

lágrimas que lhe rebentaram à mesa, e mais que tudo o silêncio que ela conservava a respeito da

procedência do fatal objeto, tudo isso falava contra a moça.

Luís Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se à mais triste e deplorável das hipóteses.

Uma idéia má começou a enterrar-se-lhe no espírito, à maneira de verruma, e tão fundo penetrou,

que se apoderou dele um poucos instantes. Luís negreiros era homem assomado quando a ocasião o

pedia. Proferiu duas ou três ameaças, saiu do gabinete e foi ter com a mulher.

Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava apenas cerrada. Eram nove horas da

noite. A moça estava outra vez assentada na cama, mas já não chorava; tinha os olhos fitos no chão.

Nem os levantou quando sentiu entrar o marido.

Houve um momento de silêncio.

Luís Negreiros foi o primeiro que falou.

– Clarinha, disse ele, este momento é solene. Respondes-me ao que te pergunto desde

esta tarde?

A moça não respondeu.

– Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida.

A moça levantou os ombros.

Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou as mãos ao colo

da esposa e rugiu:

– Responde, demônio, ou morres!

Clarinha soltou um grito.

– Espera! Disse ela.

Luís Negreiros recuou.

– Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu escritório já te

não achou lá; foi o que o portador me disse.

Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato estas linhas.

“Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança. – Tia
Iaiá”.

Assim acabou a história do relógio de ouro.

Jornal das Famílias, 1873.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Orações Coordenadas e Orarações Subordinadas

Olá educandos do 9.º Ano A e 2.º Ano do Ensino médio da Escola Presidente Kennedy. Espero que tenham aproveitado o feriado com saúde e paz na família. Estou postando alguns links para vocês pesquisarem para o 2.º Bimestre.


Orações Subordinadas Substantivas
http://www.infoescola.com/portugues/oracoes-subordinadas-substantivas/


Orações Subordinadas Adjetivas e Adverbiais
http://www.infoescola.com/portugues/oracoes-subordinadas-adjetivas-e-adverbiais/


Orações Coordenadas
http://www.infoescola.com/portugues/oracoes-coordenadas-assindeticas-e-sindeticas/


Resumo do livro Amor de Perdição (2.º Ano C)
http://vestibular.uol.com.br/resumos-de-livros/amor-de-perdicao.jhtm


O Quinze, de Rachel de Queiroz (2.º ano A)
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_quinze